Como Cury disparou nas redes e nas pesquisas e tirou mais votos de Flávio?
O escritor Augusto Cury, candidato à Presidência pelo Avante, disparou na segunda semana de campanha. Nas redes, é quem mais ganha seguidores. Nas pesquisas, saiu de nanico a terceiro colocado.
Na Real Time Big Data, divulgada hoje, e na BTG-Nexus, divulgada ontem, alcançou 11%. Ambas pesquisas fizeram entrevistas por telefone. Já na Atlas, que aplica os questionários pela internet, Cury marcou 7,8%, no levantamento lançado ontem.
Nenhuma pesquisa que aborda os entrevistados presencialmente foi divulgada desde então. Antes do fenômeno Cury, Renan Santos havia subido em pesquisas digitais, enquanto as presenciais não capturaram o mesmo ritmo de crescimento.
De toda forma, o crescimento de Cury nas três pesquisas é o maior que um candidato obteve nos últimos meses. Antes, tinha entre 1% e 2% das intenções de voto.
O salto ocorreu em apenas uma semana. A pesquisa anterior da BTG-Nexus é de uma semana antes. Já as últimas sondagens da Atlas e do Real Time Big Data são de julho. Por isso, a BTG-Nexus ajuda a identificar com mais precisão que foi justamente na última semana que a intenção de voto em Cury começou a crescer.
O Google Trends, que mede o volume de buscas, também mostra um grande crescimento de Cury desde a semana passada. Particularmente, desde 23 de agosto, quando o escritor compareceu ao debate na Band. Um dos principais destaques de sua participação foi a puxada de orelha em Renan Santos (Missão), tachado de agressivo.
- Augusto Cury em uma semana:
Foi de 2% para 11% da intenção de voto na BTG-Nexus; - Ganhou 1,2 milhão de novos seguidores no Instagram, segundo a plataforma Social Blade;
- Cresceu nas buscas no Google a partir do debate na Band.
O debate na Band foi só o começo. O Google costuma registrar picos de busca pelos candidatos quando há grandes eventos televisivos, como debates e sabatinas. Em geral, o interesse retroage logo em seguida.
Mas, com Cury, as buscas continuaram altas, com novo pico em 26 de agosto, sem nenhuma explicação em particular. O Google Trends mostra que elas têm origem no Brasil —posts em redes sociais levantaram suspeitas de que o aumento de buscas pelo candidato fosse fruto de uma onda artificial gerada na Índia.
Uma possível explicação para o interesse em Cury seguir elevado após o debate da Band é o alcance obtido com patrocínio de conteúdos nas redes sociais.
Apoio de Marçal e campanha digital
Até a primeira metade de agosto, os vídeos de Cury no Instagram raramente passavam a marca de um milhão de visualizações.
Até que em 18 de agosto, um conteúdo viralizou no Instagram. Era o influenciador Pablo Marçal, em um post em conjunto com Cury. O vídeo superou as 9 milhões de visualizações.
“Eu, Pablo, olhando pro cenário (político atual), pra mim você (Cury) é o cara ideal”, dizia o influenciador no vídeo. “Eu quero que você (Cury) conte comigo, inclusive na sua candidatura”.
A princípio, Marçal é um oponente de Cury. O influenciador chegou a registrar seu nome na disputa à Presidência, pelo PRTB. Mas está inelegível e, por isso, deve ter a candidatura indeferida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Uma das razões da inelegibilidade foi ter pago pessoas que conseguissem viralizar com cortes seus na internet.
Em 20 de agosto, Cury postou outro corte de vídeo de Marçal, que teve quase 5 milhões de visualizações. “Se eu fosse escolher alguém da minha vontade, eu votaria no Cury. É o meu favorito”, diz Marçal.
Três dias depois, ocorreu o debate na Band. A partir daí, o perfil de Cury mudou de patamar. Quase todos os vídeos do candidato postados desde então passaram de um milhão de visualizações, além de ganharem uma linguagem visual mais própria.
A biblioteca de anúncios da Meta mostra que, de 25 de agosto em diante, a campanha de Cury começou a atingir grandes audiências com conteúdos impulsionados.
Em 25 de agosto, por exemplo, pagou cerca de R$ 15 mil para impulsionar um post no Instagram com a fala final do candidato no debate da Band. Se tornou o vídeo mais visto de Cury desde o início do período eleitoral, com mais de 20 milhões de visualizações.
“Se você achar que eu mereço seu voto, faça um vídeo de apoio, porque furar essa bolha só depende de você”, disse Cury, ao final de sua fala. De fato, diversos perfis passaram a produzir conteúdo sobre o candidato. Muitos, são repostados por Cury nos stories no Instagram.
Já de 25 a 29 de agosto, a campanha de Cury gastou cerca de R$ 2.500 para impulsionar um carrossel que começava com a frase “8 ideias do debate da Band que fazem o Brasil pensar” e tinha uma foto de Cury em frente ao púlpito da emissora.
Uma das frases era: “A dívida brasileira tem rosto: tem o rosto do seu filho”. Outra: “O Brasil merece se desenvolver sem grito, sem agressividade e sem diminuir as pessoas”.
O anúncio atingiu mais de um milhão de pessoas. Deu tão certo que a campanha gastou mais R$ 2.000 para gerar uma nova versão do conteúdo, de 28 a 30 de agosto. Novamente, mais de um milhão de pessoas viram o anúncio.
Terceira via, mas não tanto
A intenção de voto em Cury é, acima de tudo, uma rejeição aos demais candidatos.
Por que você vota no Cury? A Real Time Big Data fez essa pergunta. A principal razão, com 33%, é “porque é o menos ruim entre as opções”. Nenhum outro candidato registrou um percentual tão alto dessa resposta. Entre os eleitores de Lula, 6%. Flávio, 14%. Renan Santos, 3%.
A segunda principal razão é “porque rejeito os adversários”, com 18%.
Em outras palavras, Cury parece ter encampado a terceira via não por ter convencido o eleitor das suas ideias, mas pela exclusão da primeira e da segunda via.
Os dados das BTG-Nexus, Atlas e Real Time Big Data indicam que foi na candidatura de Flávio Bolsonaro que Cury gerou o maior abalo —mas só no primeiro turno.
A BTG-Nexus divide o eleitorado em diversos grupos, de acordo com a preferência política. Os maiores são os bolsonaristas (28%), lulistas (25%) e não polarizados (20%).
É no grupo dos não polarizados que Cury se sai melhor. Chega a 19% da intenção de votos nesse grupo, contra 21% de Flávio Bolsonaro (PL) e 22% de Lula (PT).
Já nos grupos lulistas e bolsonaristas, é Flávio quem mais perde. Entre os lulistas, Cury moveu apenas uma palha: sua intenção de voto foi de 1% para 3%. Já entre os bolsonaristas, saiu de 1% para 8%.
Há ainda uma fatia menor do eleitorado que gosta de Lula ou Bolsonaro (aqui considerado o sobrenome, não o filho 01), mas não está convicto. Entre os que pendem mais a Lula, Cury saiu de 5% para 14%. Já entre os que flertam mais com Bolsonaro, Cury explode de 4% para 26%.
No balanço final, quem mais perde com a subida de Cury é Flávio Bolsonaro.
A Atlas traz outro dado que acende um alerta para Flávio —de novo, só no primeiro turno.
Entre quem diz ter votado em Jair Bolsonaro em 2022, 69% optam por Flávio agora. Outros 9,8% vão de Cury, e 9,4%, Renan. Já entre quem afirma ter apertado o 13 nas urnas em 2022, 88,7% seguem com Lula na atual eleição e apenas 3,9% migram para Cury.
Já num segundo turno entre Flávio e Lula, o filho de Jair absorve a maior parte dos votos dados a Cury no primeiro turno.
Na semana passada, quando Cury explodiu, as principais pesquisas relacionadas ao escritor no Google pretendiam saber se “cury apoiou lula em 2022”, “augusto cury apoiou lula em 2022”, “augusto cury apoiou lula”, “augusto cury apoiou lula?”, “augusto cury já apoiou lula”, “augusto cury apoiou lula em 2022?”.
Uma hipótese é que o eleitor está buscando uma terceira via. Mas antes quer garantir que ela esteja mais apontada para a direita do que para a esquerda.
O eleitor de Flávio parece ter percebido que Cury representa um perigo. De acordo com monitoramento da Palver em mensagens no WhatsApp e no Telegram, Cury bombou depois das notícias sobre seu crescimento nas pesquisas.
A maior parte das conversas têm um tom desfavorável a Cury “sobretudo entre setores da direita, que o tratam como ameaça aos votos de Flávio Bolsonaro e como potencial fator de benefício indireto a Lula”, diz a Palver.
Fonte : Amanda Rossi e Bruno Luiz Do UOL.


































